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Como escolher seu calendário de provas

Você termina um treino ou uma prova, cheio de animação, e aí alguém fala "vamos fazer aquela prova comigo?" — e pronto. Você já foi. Abriu o celular ali mesmo, digitou o cartão, e só depois foi pensar se fazia algum sentido.


Acontece com todo mundo. E não é necessariamente errado. O problema é quando isso vira um padrão: inscrições empilhadas, provas em sequência, objetivos que não conversam entre si. Aí o corpo começa a cobrar.


Você é um atleta amador. Leva isso a sério.

Não no sentido de que você não é bom ou não é dedicado. Mas no sentido literal: você tem outras coisas na vida além de treinar. Trabalho, família, contas pra pagar. O atleta puramente profissional acorda e a única preocupação é viver do esporte: treinar, descansar, se alimentar direito, se recuperar. Você acorda e ainda tem que resolver coisas do trabalho, levar filhos na escola, gerenciar todas as demandas da vida e ainda (tentar) ter vida social.


Esse é o principal fator que pega de surpresa os atletas amadores: a semana que você imagina no domingo raramente é a semana que acontece de verdade. Chuva, trânsito, filho doente, demanda ou reunião surpresa no trabalho. E aí o plano vai por água abaixo. Então quando a gente planeja, a gente precisa planejar a semana real — não a ideal.


Ir com muita sede ao pote é o caminho mais rápido pra perder a motivação.

Tem atleta que começa a correr e já quer fazer maratona no ano seguinte. Quer fazer Ironman em seis meses. A vontade é linda, mas a fisiologia não negocia. Músculos. tendões, ligamentos, densidade óssea, adaptações cardíacas ótimas — essas adaptações levam um, dois anos. Às vezes mais. Não tem atalho, não tem suplemento que adiante esse processo. Você pode até terminar a prova, mas a experiência vai ser sofrida do jeito errado — não o sofrimento bom de uma prova bem feita, mas o sofrimento de quem estava despreparado. E com isso podem vir as lesões e sintomas mais graves.


E ainda tem uma coisa que é mais silenciosa do que a lesão: a fadiga mental. Você vai com tudo, se machuca (ou não), mas chega no meio do ciclo exausto e sem vontade. "Eu cansei." Aí para. Destreina por semanas. E quando volta, perdeu meses de evolução — literalmente. Duas semanas sem treinar, pra quem vinha consistente, pode custar um a dois meses de desenvolvimento. O famoso "volte duas casas"


Esse ciclo de treina-para-destreina é mais prejudicial do que parece. E ele quase sempre começa com um calendário mal planejado.


A prova não é o fim. É o meio.

A medalha é bonita. a foto do insta é ouro. Mas se você só treina quando tem prova na frente, você está usando o esporte do jeito errado pra você. Porque hora ou outra você vai ficar sem prova, ou vai entrar num período de vida que não permite competir — e aí larga tudo.


O que mantém a consistência ao longo dos anos não é a prova. É o treino pelo treino. A prova é uma passagem, uma celebração daquele ciclo. Mas o hábito tem que existir independente dela. Para viver o esporte, é necessário gostar mais de treinar do que de competir.


Prova A, B e C: não é complicado.

No calendário, existe uma hierarquia simples. A prova A é o seu objetivo principal do ciclo — é pra ela que você está treinando de verdade, é ela que recebe toda a preparação. As provas B e C são passagens: entram no planejamento como estímulos, não como objetivos.


Isso tem uma consequência prática importante. Se você está num ciclo de maratona e tem um 21k no caminho, esse 21k provavelmente é uma prova C. Não é hora de bater recorde. A ideia é usar a estrutura da prova — percurso, hidratação, ambiente — como um treino de qualidade. Se você resolver dar tudo ali e bater seu PR, provavelmente vai pagar caro: três, quatro dias de recuperação que não estavam no plano, e toda a semana seguinte comprometida. às vezes, até mais.


Você pode levar os 21K e perder a maratona.


A janela de inscrição aperta, e aí você decide mal.

O triathlon tem um agravante que as corridas (exceto as Majors ou provas super concorridas) não tem. O Triathlon precisa das bikes e isso limita o número de atletas por prova. Então as inscrições abrem e esgotam rápido, e você sente aquela pressão de "agora ou nunca". É exatamente aí que entram as decisões ruins.


Antes de se inscrever em qualquer prova com peso no calendário, vale perguntar: isso conflita com as férias da família? Com a agenda escolar dos filhos? Com alguma data comemorativa que já estava marcada? Já alinhou com sua esposa/marido/filhos(as)? E mais do que isso: tem como chegar na prova descansado, ou você vai chegar direto de uma viagem longa, com jet lag, com a cabeça ainda no trabalho?


Esses detalhes parecem pequenos. Mas é justamente a soma deles que define se uma preparação vai funcionar ou não.


Menos é mais. De verdade.

Não adianta empilhar provas achando que quantidade é evolução. Duas provas longas no mesmo semestre (uma maratona e um 70.3, por exemplo) praticamente garantem que você vai chegar em pelo menos uma delas abaixo do que poderia fazer se focasse em apenas um objetivo. Seu corpo não consegue se preparar pra tudo ao mesmo tempo. E sua vida também não. A fisiologia é ingrata nesse aspecto. O princípio da especificidade mostra a que veio.


O melhor cenário é sempre estar próximo do seu(sua) treinador(a) antes da inscrição, não depois. Conversar com o calendário na mão, com as datas fechadas, com a realidade da sua vida e, a partir daí montar algo que faça sentido de verdade. Que te deixe chegar nas provas preparado, animado, e sem ter sacrificado todo o restante pra isso.


Esse é o calendário que vale a pena.

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